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O Papa Francisco reduziu silenciosamente as sanções contra um punhado de sacerdotes pedófilos, aplicando sua visão de igreja misericordiosa até mesmo para se ...
Religião 01 de março 2017 11h:37
Discretamente, papa Francisco reduz sanções para agressores sexuais

O Papa Francisco reduziu silenciosamente as sanções contra um punhado de sacerdotes pedófilos, aplicando sua visão de igreja misericordiosa até mesmo para seus piores criminosos, de maneira que os sobreviventes de abusos e os próprios conselheiros do Papa vêm questionando tal atitude.

Imagem redimensionadaEntre os "perdoados" está o sacerdote italiano Mauro Inzoli, que recebeu a clemência do Papa e foi mais tarde condenado por um tribunal italiano por seus crimes sexuais contra crianças menores de 12 anos. Ele agora está enfrentando um segundo processo na Igreja após o surgimento de novas provas, segundo apurou a agência Associated Press.

O caso de Inzoli é um dos vários em que Francisco ignorou a recomendação da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano e reduziu uma sentença que exigia a excomungação do sacerdote, disseram dois advogados e um oficial da igreja à AP. Em vez disso, os sacerdotes foram condenados a penas como uma vida de penitência e oração, ou a remoção do trabalho em público.

Em alguns casos, os sacerdotes ou seus amigos de alto escalão apelaram à clemência de Francisco, citando as próprias palavras do papa sobre a misericórdia, disse uma fonte da igreja, falando sob condição de anonimato.

Bento XVI foi mais duro

"Com toda esta ênfase na misericórdia ... ele está criando o ambiente para tais iniciativas", disse a fonte da igreja, acrescentando que os pedidos de clemência raramente eram concedidas pelo Papa Bento XVI, que lançou uma dura repressão durante seu papado entre 2005 e 2013, excomungando cerca de 800 sacerdotes que estupraram e molestaram crianças.

Ao mesmo tempo, Francisco ordenou que três funcionários da congregação fossem demitidos, dois dos quais trabalhavam para a seção que lidava com casos de abuso sexual, disseram os advogados e oficiais da igreja.

Um deles é o chefe do departamento e será substituído antes de 31 de março. O porta-voz do Vaticano Greg Burke disse que os outros também serão substituídos.

— A velocidade com que os casos são tratados é um assunto sério e o Santo Padre continua a encorajar melhorias nesta área — disse Burke à AP.

Ele também dissipou rumores de que casos de abuso sexual já não seriam mais tratados pela congregação, dizendo que a Santa Sé iria lidar com todos os casos denunciados. Burke disse ainda que a ênfase dada por Francisco à misericórdia se aplica "mesmo àqueles que são culpados de crimes hediondos".

— O Santo Padre entende que muitas vítimas e sobreviventes podem avaliar de forma dura qualquer sinal de misericórdia nesta área. Mas ele sabe que a mensagem do evangelho de misericórdia é, em última instância, uma fonte de poderosa cura e de graça.

João Paulo II foi criticado por não responder à crise de abusos, mas, em última análise, ele disse em 2002 que "não há lugar no sacerdócio ou na vida religiosa" para quem quer prejudicar os jovens. Francisco repetidamente proclamou "tolerância zero" para sacerdotes abusivos.

Mas ele também disse recentemente que acreditava que os agressores sexuais sofrem de uma "doença" — um termo médico usado por advogados de defesa na busca por fatores atenuantes em casos de crime.

Ativistas cobram justiça 

Marie Collins, sobrevivente de um abuso na Irlanda e fundadora da comissão consultiva de abuso sexual do Papa Francisco, expressou insatisfação com o enfraquecimento das recomendações da congregação e disse que os agressores nunca estão tão doentes a ponto de não saber o que estão fazendo.

— Todos os que abusam tomaram uma decisão consciente de fazê-lo — disse Collins à AP. — Mesmo aqueles que são pedófilos, os especialistas dirão, ainda são responsáveis por suas ações. Eles podem resistir a suas inclinações.

Os defensores de vítimas há muito questionam o compromisso de Francisco de continuar a linha dura de Bento, já que ele não tinha experiência em lidar com padres abusivos ou suas vítimas em seu país natal, a Argentina. Enquanto Francisco conta com o cardeal de Boston Sean O'Malley como seu principal conselheiro sobre o tema, ele também se cercou de assistentes que fizeram vista grossa a casos de pedofilia em suas arquidioceses.

— Eles não estão tendo tolerância zero — disse Rocio Figueroa, ex-funcionário do Vaticano e ex-membro do Sodalitium Christianae Vitae, uma sociedade conservadora católica leiga atingida por escândalos sexuais.

O Vaticano recentemente decretou sanções contra o fundador do grupo, após determinar que ele abusou sexualmente, psicologicamente e fisicamente de seus recrutas. Suas vítimas, no entanto, estão furiosas que a Santa Sé tenha levado seis anos para decidir que o fundador deve ser isolado, mas não expulso da Igreja.

Muitos advogados e autoridades católicas argumentam que a erradicação de pedófilos pode colocar a sociedade em maior risco porque a Igreja não exerceria mais nenhum controle sobre eles. Segundo este argumento, manter os criminosos em um sacerdócio restrito, longe das crianças, pelo menos permite que os superiores exerçam algum grau de supervisão.

Mas Collins disse que a igreja também deve levar em conta a mensagem que as sentenças atenuadas enviam tanto a sobreviventes como a agressores.

— Embora a misericórdia seja importante, a justiça para todas as partes é igualmente importante — disse Collins por e-mail. — Se houver qualquer fragilidade nas sanções adequadas, então isto pode muito bem enviar a mensagem errada para potenciais agressores.

Fonte: O Globo

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